15/03/2010 | Ilha do Cardoso - Invasão das águas


Por Jaques Gomes Filho e Ronaldo Dias
Fotos: Ronaldo Dias

As águas estão invadindo uma parte da Ilha do Cardoso. A correnteza do Canal de Ararapira, influenciada pelo movimento do mar, tem “lixado” as encostas ou barrancos de uma parte da Ilha e, com isto, muitos moradores estão sendo obrigados a se mudar.

Ararapira, no século XIX, chegou a ser um importante centro comercial. Anos mais tarde, na década de quarenta, quinhentas famílias chegaram a viver na região. Porém, com a decadência  econômica de Cananéia e o avanço da maré, aos poucos a cidade foi sendo abandonada – pelo menos vinte casas já foram levadas pelas águas do Canal.

“A erosão nesta área é um processo natural que foi acelerado nos últimos anos pela ação do homem”, explica Michel Mahíques, diretor do Instituto Oceanográfico da USP.

“A partir do momento em que o homem atua diretamente sobre a costa, ele induz modificações na dinâmica que muitas vezes são mais importantes nos processos erosivos do que hoje em dia é a influência do aquecimento global”, continua o pesquisador.

Cientistas do Paraná calculam que a divisão da Ilha do Cardoso deve acontecer em no máximo três anos – depois disso não sabem dizer exatamente o que vai acontecer com esse ambiente.

O ponto de maior proximidade entre as águas do mar e as do Canal de Ararapira, na maré cheia, não passa de trinta metros.

Quando as águas se encontrarem a divisa entre os estados vai se deslocar. Trocando em miúdos, São Paulo vai perder três quilômetros da Ilha para o Paraná.

Na região entre o Canal e o mar vivem cinqüenta famílias que hoje estão em perigo, sendo dever do Estado de São Paulo deslocá-las – e não vai ser tarefa fácil.

A primeira família que vai ser retirada da área de risco é a da Sra. Fátima Santana, que mora com o marido e duas filhas em uma casa de madeira que já sofre com a erosão. E esta já é a terceira moradia! As outras foram levadas pelas águas do canal.

Quando o rio se juntar com o mar toda a comunidade da Enseada da Baleia deve desaparecer. Sim, a fúria da natureza já mudou até a geografia do lugar.

Antonio Cardoso, o “Malaquias”, nascido na região, passou os últimos 25 anos gastando dinheiro com obras  de contenção para segurar a maré.

“Com o dinheiro que gastei aí dava para construir uma mansão na cidade, agora vou ter que parar de brigar contra a natureza, porque não tô (sic) vencendo”, lamenta Malaquias.

A Ilha do Cardoso faz parte de um dos ecossistemas litorâneos e estuarinos mais bem preservados do Brasil, constituindo uma reserva natural que é patrimônio da humanidade.

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